43 milhoes de refugiados no Mundo. Nao é pouca coisa, nao. E muita gente se pergunta o que acontece num Campo de Refugiados.O Campo é uma cidade. A céu fechado porque ainda nao conheci nenhum Campo que esteja perto da Cidade. O Bobola, antigo Campo em Maputo, Capital de Mocambique, foi transferido para 2000km da Capital por causa da pressao da África do Sul, uma vez que o mesmo ficava muito próximo á fronteira dos dois países. Fronteira essa que é um verdadeiro caos.
Uma vez dentro do Campo, as relacoes sociais se proliferam á justa imagem e semelhanca de uma sociedade normal.
Ser órfao e viúva no Campo é está à mercê da própria sorte. Nas vezes em que visitei Campos de Refugiados, fiquei estarrecida diante de depoimentos dolorosos. Uma somaliana, Fatuma, me contou com lágrimas nos olhos que nao conseguia dormir. Mudava de casebre a cada noite diante das batidas nas portas. E o ciúmes das mulheres casadas ofendiam tanto quanto as indiretas dos maridos. Ela, a somaliana, sozinha, perambulava pela África, desde a noite de núpcias na periferia de Mogadischio, a capital somaliana. Uma noite cruel em que fugiu de seu algoz: o marido arranjado pelos pais. Criou coragem e enquanto o recém-marido fumava, ela fugia pelo quintal em direcao a uma vida de perseguicao.
Uma órfa de 14 anos, me contava com ajuda de uma tradutora que era humilhada pela familia que se responsabilizava por ela.Acordava ás 4 da manha e dormia às 11 da noite, cuidando das criancas, enquanto a dona da casa, ficava num botequim, dentro do próprio Campo.
Uma mäe pedia ajuda para o filho recém-atacado. O representante da ONU me dizia que ela estava bêbada. Nao era de todo mentira. Ela se agarrou á bebida para superar a dor. O menino, de 4 anos, se submeteu a uma cirurgia para restaurar a regiao anal.
Um viúvo, com 3 meninos, pediu para que eu desse algum dinheiro para comprar leite. Ele, viúvo, perdera a mulher diante de 3 policiais da Serra Leoa. Ela preferiu ser violentada enquanto ele fugia com os filhos. Nunca mais esqueci os olhos lacrimejantes dele. Dei o dinheiro, num gesto sorrateiro, para que os demais nao vissem.
O menino congolês…14 anos. Um artista nato na arte do desenho. Fiquei tao impressionada com os trabalhos dele que localizei amigos suecos para o manter em uma escola adequada. Nao sei se cheguei a tempo. Ao desembarcar no Campo, ano passado, eu entreguei todo o material de trabalho dele. Vi, em seus olhos, relampejos de dor. Um dia depois, ele me procura e fala: ” tia, posso dar todo material para minha irma e primos?” Fiquei boquiaberta. O material era de primeira qualidade, ideal para seus trabalhos. Eu quis saber o porquê e ele foi taxativo: ” eu vou fugir do Campo, em dois dias e naoa cho justo dar o que você me deu, sem autorizacao…”
De tudo eu fiz para impedir que esse menino, e mais dois amigos da mesma idade, fugissem para o Zimbabwe. Apelei para o secretário de comunicacao, a administracao do Campo. Algo dentro de mim diziz que nao daria certo. Dias depois, estourou os conflitos tribais no Zimbabwe. Nao sei que fim esse menino levou.
Tem noites em que acordo movida por um pesadelo. O menino congolês me pede ajuda. Mas, na altura do campeonato, nada posso fazer.
As intrigas e invejas sem fim povoam o Campo. A.M. encontrou o marido, um congolês, na cama com a burundesa de 23 e mae de gêmeos. A guerra comecou e eu descobri pelo gerente do banco mocambicano que parte do dinheiro que eu enviava às criancas, era gasto pelo pai. Fora de casa. A filha mais velha do casal me contou enquanto a mae, envergonhada, falava: “Grace, me dê uma fórmula para afastar essa mulher do meu marido…”
Muitos congoleses dao despachos de magia negra nos arredores do Campo. A tradicao deles é que a solucao para tudo está no Culto aos seus deuses. Segundo soube, na última vez, até o atual administrador estava envolvido nesses rituais. Ave Maria!
Ano passado, estava eu dormindo, quando uma religiosa me telefonara pedindo socorro. T.Z., matara a esposa dentro do Campo. Motivos?ciúmes do fato de que a filha do casal, com doenca neurológica irreversível, recebia ajuda financeira de um casal sueco e que a esposa iria pedir ajuda para fugir da África com o bebê. Hoje, com o pai preso, o bebê nessas condicoes vive na casa de um e de outro. JUnto com irmaos menores.
Tem horas em que eu acho que, brevemente, essa crianca vem parar aqui em casa.Nao sei se eu vou ter coragem de ir ao Campo e deixá-la dessa forma. Nas maos de pessoas que nao têm nem para elas mesmas. Reluto em visitar o Campo enquanto nao receber o aval do meu marido para esse problema. Sei que todo mundo quer adotar uma crianca saudável, linda e maravilhosa. Mas nao acho justo deixar um bebê nessas condicoes. Assim como sei que adotá-la é o mesmo que viver para ela. E, diariamente, eu me pergunto:” DEUS , O QUE TU RESERVAS PARA MIM?”
Respostas para essa pergunta, só terei com o tempo. Por que nem sempre, o tempo de Deus é o meu tempo. E vice-versa.




















Livro: 

by Grace Olsson
8 comments
link to this post