
10 horas da manha. No mesmo caminho de sempre. Desci do ônibus e, entre a direita e a esquerda, escolhi a última, ao descer na Antikvarieväg. Entrei na floresta e, de lá, via bem a Casa de Idosos. Estava eu agachada, olhando pequenas gotas de orvalho, nas folhas, quando tive a sensacao de ouvir passos em minha direcao. Quando eu olhei para trás, um homem negro, avancou na minha direcao e me agarrou pela gola da camisa que eu vestia.
Instintivamente, eu tentei me esquivar e proteger a minha garganta com os cabelos. Finquei as minhas unhas na cara do homem e comecei a gritar. Ninguém ouvia. E se, por trás das árvores, num ponto de ônibus, alguém ouviu, nao me socorreu. Uma unha se quebrou, o sangue jorrava do rosto do homem e o ódio dele aumentava.
A minha salvacao é que, uma amiga brasileira me deu de presente, anos atrás, uma bolsa da CANTAO. E esta bolsa nao sai debaixo do meu braco. E foi essa bolsa que me livrou por que com a mao direita, eu agarreia bolsa e joguei nele. Ele se desequilibrou e caiu. Tempo que me deu para correr. Ele foi atrás de mim e quando avistou uma pequena ponte que separa a rua do condomínio em que moro, de lá, avista as casas, ele nao continuou me seguindo.
O que se deu em seguida, foi a certeza de que nao há muita diferenca entre a polícia sueca e a polícia brasileira. As únicas diferencas sao que a polícia sueca é bem arrumada, vestida, prédios limpos, telefones, etc. Mas, nenhum preparo para lidar com essa situacao.
O policial que me atendeu – o marido, ao saber do ocorrido, chamou a polícia- estava tao nervoso quanto eu. Ele nao sabia se me consolava ou pedia desculpas pelo ocorrido. Ele, entre tantas coisas sem nexo, me aconselhou a fotografar o agressor, caso eu o encontre. E me perguntou se eu tenho coragem de depor num Tribunal, caso o agressor seja encontrado. E meu marido insistia dizendo que, as minhas unhas estavam cheias de resíduos da pele do agressor. Que minha mao esquerda tinha marcas da agressao. As minhas costas estavam com marcas arroxeadas e que tudo isso tudo deveria ser coletado.
Nao!!! O policial nao tinha nenhuma experiência com isso. Depois de tempo interminável me interrogando, surge uma policial feminina, com uns folhetos, me ensinando o que eu devo fazer quando eu for atacada. Quanta baboseira! Quanta falta de preparo!
Meu marido era um misto de desespero e desapontamento. É que, em 2007, ele decidiu que nao queria viver no Brasil, por causa da violëncia e que, por mais que eu dissesse que tinha pressentimento de que aqui nao seria diferente, ele nao acreditou. Vendemos tudo e viemos, contra a minha vontade, viver na Suécia. Ele se lamentava:
Voltei ao meu país para ter seguranca. Hoje, eu vou vender a casa e mudar de bairro. Acho que vou viver o resto de meus dias a fugir de gente. Ou talvez, fazer como a minha mulher que cansa de dizer que a melhor coisa que se tem na vida é ACREDITAR EM DEUS, POR QUE ESSE PLANETA NAO TEM NADA PARA DAR A NINGUÉM.
Ele falou isso, bateu a porta da Central de Polícia e saímos. Voltamos para casa. Voltamos para a nossa solidao a dois. Voltamos para certeza – tardia para ele, por que eu nunca tive dúvidas- de que NAO TEMOS SEGURANCA EM NENHUMA PARTE. E que, este país, está longe de ser a minha casa. EU ESTOU AQUI POR CAUSA DOS FILHOS. MAS, NUNCA MORREU DENTRO DE MIM, A CERTEZA DE QUE VOU VOLTAR, MAIS DIA MENOS DIA, PARA O CHAO QUE ME VIU NASCER! E TALVEZ, EU VÁ DECIDIR LARGAR TUDO PARA TRÁS: FILHOS, CASAMENTO, BENS, TUDO. POR QUE EU NAO ME SINTO EM PAZ!!! ESTE PAÍS NAO é O MEU PAÍS.
Nao se engane, brasileiro, que acha que o Brasil é o pior pais para se viver. A violëncia está em toda parte. Em um mês, 8 mulheres foram violentadas em Estocolmo, a Capital sueca. 12 meninas foram assassinadas, em menos de um ano. Isso nao é mentira. É realidade! Nao adianta brasileiro viver por aqui, escrever em blogs que tudo é bem bonito, por que nao é. Nao adianta criticar a polícia brasileira sem nunca ter precisado da polícia sueca. Eu vivi na prática, a polícia brasileira interrogando vitimas de estupros, quando era estudante de Direito no Brasil. e vivi na prática, aqui na Suécia, por que hoje, eu sou uma vítima de um governo desgovernado.
Eu moro numa área boa, com 41 casas. A minha casa foi arrombada, ano passado, enquanto eu estava no Brasil. A polícia sueca nos aconselhou a ficar de olho num site onde se vende produtos roubados, para encontrar pistas dos produtos que os bandidos levaram. Sábado, a vizinha estava dormindo, 11 da noite, quando ouviu barulho. UM ladrao estava na garagem dela, tentando entrar para dentro da casa. Foi o maior desespero. Os jornais anunciam que homens encapuzados mataram um rapaz em Estocolmo. A polícia daqui nao encontra solucao, a sociedade está desesperada por que idosos sao maltratados dentro de casa, por bandidos, ninguém sai nas ruas depois das 10 da noite.
O único consolo que me resta é que TUDO ISSO NAO ACONTECEU COM A MINHA FILHA. OU COM UMA CRIANCA!
AH….A vernissage aconteceu, vendi mais fotos que a Galeria esperava, mas nao tenho condicoes de escrever sobre coisas lindas, quando eu nao me sinto bem. Hoje, eu tenho um compromisso e vou ter que viajar para a Finlândia.

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